
Longe de ser uma narrativa de ficção agradável por sua essência, esse texto mostra a inconformidade de uma mãe por ter perdido seu filho ainda em seu ventre e a dúvida sobre a ação de Deus.
Deus: Assassino Injusto
Acabei de perder o meu filho após uma tranquila e amável gestação de nove meses. E como desgraça pouca não tem graça, acabei de perder a minha fé em Deus por causa de um ensinamento que eu ouvi. Acabei de saber que o meu filho recém-nascido foi enviado para o inferno por esse Deus que tanto pregam; por esse Deus que eu cresci aprendendo sobre Ele desde que eu era criança, e admito que muitas e muitas vezes me apresentei a Ele como uma criança precisando de um pai pois entendo que Ele é meu Pai. E admito que fiquei com muita raiva, decepcionada e desacreditada sobre Deus e sua palavra.
Eu amava a minha criança, e amava demais a Deus. Eu aprendi que Ele é o Deus de amor; melhor: que Ele é amor (Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor. I João 4:8), mas não senti vindo amor vindo DEle quando Ele decidiu levar o meu filho de mim. Na verdade eu ainda não acredito que isso aconteceu.
Levamos meses trabalhando para arrumar o quartinho dele, pintamos, decoramos, recebemos presentes, fizemos festas a cada mês que passava na feliz expectativa de recebermos nossa criança; a criança que foi prometida para nós... o quarto ainda está intacto cheio de presentes que iríamos recebe-lo, mas ele não vem mais para os meus braços. Ele foi enviado para outro lugar. Foi enviado para o inferno, e quem o enviou foi Deus. Esse Deus que eu tanto amava.
Eu havia aprendido que Ele havia enviado o seu filho Jesus para ficar entre nós, passar um tempo aqui falando amavelmente sobre a salvação das nossas almas e depois voltar para o céu nos preparar lugar de descanso, (E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também João 14:3), mas entendo que isso é mentira. Ele não está fazendo isso. Ele está lá encima no bem bom e meu filho está queimando eternamente onde há pranto e ranger de dentes. (E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes Mateus 13:42). Mas o que o meu neném fez para merecer isso? Ele não tinha entendimento de nada. Absolutamente nada. Ele só conhecia a minha voz, a voz do meu cônjuge e nem havia conseguido nos identificar visualmente pois assim que saiu de dentro de mim, morreu. Ele não havia causado escândalo algum, não cometeu nenhuma iniquidade, não falou mal de ninguém e como podem admitir veementemente esse absurdo? (Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade. Mateus 13:41)
Eu cresci ouvindo que das crianças é o reino dos céus, aprendi que o Filho de Deus ficava dizendo que era para as crianças ficarem perto dele, que ele amava as crianças, que Ele não gostava que fizessem coisas ruins a elas, mas... como pode ser isso? (Jesus, porém, vendo isto, indignou-se, e disse-lhes: Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus. Marcos 10:14) Se foi verdade tudo isso por que meu neném está no inferno agora com um monte de assassinos, estupradores, ladrões e tudo que é tipo de gente ruim?
Não pode ser! Não mesmo!! Será que Ele não lembra que centenas de outros bebês inocentes foram chacinados enquanto procuravam por Ele?!! Será que Ele permitiu isso como uma pré-vingança a nós reles humanos por aquilo que iria acontecer a Ele na cruz e antes dele ser pendurado nela? Esses bebês foram sacrificados, cortados no meio por espadas, furados, dilacerados com requintes de crueldade e ... vou me limitar por aqui. É muita maldade para imaginar que o meu bebê foi classificado como um desses e está com eles. (Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos. (Mateus 2:16)
Se isso tudo, se essa asneira toda que eu ouvi agora for verdade, então Ele não é justo, porque eu também aprendi que Ele não leva em conta o tempo da ignorância e com certeza absoluta e incontestável, aquele bebê... o meu bebê, assim como todos os outros bebês que vieram antes dele e depois dele são ignorantes, não tem conhecimento de nada, agem por puro instinto de sobrevivência ao mundo que iriam ou vão começar a conhecer.
(Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos. Atos 17:30 e 31
Não posso atribuir a morte da minha criança a nenhuma outra pessoa, nem mesmo ao diabo uma vez que ele e a sua desgraçada corja só faz aquilo que Ele permite que eles façam. Deus é o único que dá e tira a vida. E tudo isso por uma palavra maldita, na “piorzíssima” das possibilidades, vou me forçar esmeradamente em acreditar que se Ele matou a minha criança, foi por um plano, projeto ou propósito maior que eu ainda não consigo entender e aceitar nesse meu momento de dor, caso contrário Ele será sim, conforme foi sutilmente apresentado nesta noite, como Deus: assassino injusto.